Na segunda edição do Papo de Redação, o Caixa Preta teve o privilégio de ser recebido pelo grande jornalista, gourmet, escritor, comentarista e arquiteto Silvio Lancellotti. Hoje trabalhando como comentarista na ESPN Brasil e com dezenas de livros publicados, entre romances, livros de receitas e sobre futebol. Lancellotti é um dos grandes nomes do jornalismo esportivo brasileiro e por isso o procuramos. Ele recebeu o Caixa Preta em sua casa aconchegante, na zona sul de São Paulo, durante o aniversário da cidade.
A fala pausada, o olhar franco e as respostas firmes, são reflexo de um profissional experiente e inteligente. A impressão que tivemos é de um perfeccionista, especialmente no uso da língua. Ainda durante o papo, revelou uma ligação que fez à ESPN cobrando a troca da palavra Octacampeão (referindo-se ao título corintiano da Copa São Paulo 2012): “Não existe Octa, é Octo! (…) Se você não corrige, fica assim”. Assim é Lancellotti. Confira a primeira parte da entrevista.
Caixa Preta – Você se formou em arquitetura, mas desde 1968 trabalha como jornalista…
Silvio Lancellotti – Eu me formei em arquitetura, trabalhei em arquitetura até 1980. Eu na verdade queria fazer arquitetura e trabalhar com isso, mas acabei sendo arrastado pro jornalismo num desses acidentes do destino, uma ‘bola de neve’. E não saí mais.
CP- Ao longo da sua carreira você se tornou referência em gastronomia, como escritor e comentarista de futebol, colunista em jornal. Qual dessas áreas mais faz a cabeça do Silvio Lancellotti?
SL – Isso tudo foi acidente, nada provocado. Eu se pudesse hoje decidir sobre o meu passado, gostaria de ter sido arquiteto. Adoro projetar. Tenho 200 mil metros quadrados de área construída. Algumas coisas muito bonitas, elegantes e charmosas. Mas naquela época, final dos anos 70, não estava dando e pintou a possibilidade do jornalismo. E eu acabei desembocando no jornalismo.
E o jornalismo é um vício. Não consegui parar. Comecei na Veja, da forma mais absurda possível. Comecei como editor de internacional na Veja, num ano doido que foi 1968. Teve a morte do Luther King, a morte do Bob Kennedy, a eleição do Nixon. Eu fiz a eleição do Nixon que foi a capa da revista. E aí é uma ‘bola de neve’, as coisas foram acontecendo e você não tem controle sobre elas.
Eu resisti ao máximo a deixar a arquitetura de lado, mas não consegui. Primeiro porque o jornalismo era mais cativante, mais emocionante e até porque a arquitetura não estava me dando dinheiro. Na época eu já era casado, já tinha um filho. Aí ganhei uma bolsa pra fazer psicologia da comunicação nos Estados Unidos. Aí a arquitetura dançou de vez. Me fascinei com a possibilidade e “bye bye” arquitetura.
“Eu gosto é de escrever, de colocar no papel algo que valha pro futuro”
CP – Como você vê publicações como a Veja e a Istoé, revistas que você ajudou a fundar? Como analisa essas publicações hoje?
SL – Hoje eu não leio nenhuma das duas, aliás não leio revistas. Eu sou fundador da Veja, fui um dos primeiros editores da Veja, de política internacional. Cuidei dessa área até ir para os Estados Unidos. Quando voltei, em algumas semanas eu fiz matérias importantíssimas. Matérias de capa como por exemplo a liberação do embaixador americano em troca de reféns. Depois o embaixador alemão que havia sido sequestrado também por supostos terroristas. E eu, cuidando de política internacional, estava tocando essas áreas por mera coincidência.
Se pudesse, ficaria nessa editoria a vida inteira. Adoro política dos Estados Unidos. Ainda agora temos a fase das primárias, com candidatos absolutamente grotescos, ridículos. Fiquei na Veja, fui morar nos EUA, fiquei dois anos lá. Quando voltei, assumi a maior editoria na época: artes e espetáculos. Era uma peculiaridade na época porque ninguém podia falar de economia e política. Mas havia uma brecha interessante em artes e espetáculos. Inventei a expressão “a ópera inominável” de Ruy Guerra e Chico Buarque para ‘Calabar‘. Ninguém falava de ‘Calabar’.
Só que quando o Vlado Herzog morreu, em outubro de 1976, a situação ficou muito complicada. Não na Veja, mas a situação no governo, no país. Pediram a cabeça do Mino Carta, que era nosso chefe chefe. Armando Falcão pediu a cabeça dele, isso você acha no livro do Mino: O Castelo de Âmbar. E achamos que era conveniente, correto e honesto sair da revista. Não foram todas as pessoas que saíram, mas eu saí.
Não é que eu tenha saído logo, eu lembro que uma vez, durante um jantar, o Mino me disse: “o estômago em primeiro lugar. Cuidem em primeiro lugar da alimentação e da sua família”. Eu disse: Mino, mas eu não aguento, não consigo mais trabalhar lá. E ele: “ ‘Lança’… continua. Na hora que eu tiver uma chance, eu te chamo.
Passados alguns meses, ele me chamou. Fomos jantar e ele me contou que iria fazer uma revista mensal chamada Istoé, que ia durar alguns meses. Com a mesma equipe ia fazer a revista se tornar semanal e perguntou se eu topava. Então fui fundador da Veja e fundador da Istoé. Mas essas revistas hoje são completamente diferentes do que eram. Aliás o país é diferente, não há como você comparar aquele período ao de hoje.
Eu morava em outra casa em 1968 e um vizinho meu era um oficial do exército, mas era um amigo. Várias e várias vezes ele batia na parece e dizia: “te cuida, porque eles vem pegar você”. Nunca fui um cara perigoso, fui vice-presidente da UEE no tempo em que o Serra era presidente, em 62. Fui vice-presidente de esportes, uma coisa absolutamente ridícula do ponto de vista da combatividade. Organizei um congresso da UNE em 63, mas esse foi o maior perigo que eu criei para o país, além do trabalho que fiz como jornalista. E o que eu fiz como jornalista, foi sempre honestamente.
É engraçado porque hoje com 67 pra 68 anos eu me pergunto: como fui virar jornalista depois ser arquiteto? O arquiteto é um esteta, né. Um cara que procura a beleza. Lancei um livro recentemente, o meu terceiro romance. E o meu entrevistador, o Cadão Volpato da TV Cultura, me perguntou como é essa transformação. Respondi que não sei. O que posso dizer é que num certo momento, não é que eu tenha optado, alguém optou por mim. O que eu gosto Caio, é de escrever. Tanto faz o assunto. Não importa se é esporte, cinema, teatro, música. Eu gosto é de escrever, de colocar no papel algo que valha pro futuro.
“Organizei um congresso da UNE em 63, mas esse foi o maior perigo que eu criei para o país, além do trabalho que fiz como jornalista. E o que eu fiz como jornalista, foi sempre honestamente”.
CP – Você é um dos pioneiros das transmissões do Campeonato Italiano aqui no Brasil…
SL- Não fui o primeiro. O Antero Grecco já fazia, o Flávio Prado já fazia. Lembro que em 1982-83, fui almoçar com um amigo e o Luciano do Valle estava lá. Acabamos sentando na mesma mesa e aí eu disse: ó Luciano, brincadeira né. O que os caras falam de bobagem. Erro de nome, erro de pronúncia. E o Luciano, desafiador, virou e disse: “Cê tá afim? Venha domingo, tem Juventus e Roma, você vem fazer e a gente vê o que acontece”.
E eu me preparei, fui com uma tonelada de material. Os dois times, escalações, passado… enfim. E fiz uma transmissão do grande ‘Capeta’ (Silvio Luiz). Acabou a transmissão, o Silvio Luiz virou pra mim: “Xará, cê tá fudido. Cê não sabe o que aconteceu, você não sai mais daqui”. E fiquei na Band por 13 anos.
CP – Quando começou a transmitir o futebol italiano, você imaginava que a popularidade do futebol internacional ia chegar ao que é hoje?
Eu queria que fosse assim. Até porque quando comecei a fazer o futebol italiano, eu viajava uma vez por ano pra Itália e trazia camisas pro meu filho, algumas autografadas até. Eu achava aquilo uma pena, porque as camisas italianas eram muito mais bonitas que as brasileiras. Pegava uma camisa do Genoa, da Sampdoria nossa, são lindas. Fazíamos de vez em quando um sorteio no jogo da Band. E, de novo, foi uma ‘bola de neve’. A própria emissora, num certo momento, assumiu a responsabilidade de trazer as camisas.
E hoje é engraçado, você vai na periferia em bairros paupérrimos e o assassino de plantão tá com uma camisa de uma equipe internacional. Mas eu não esperava. A gente queria que a coisa desse certo.
CP – O que você acha da cobertura esportiva brasileira. Qual a avaliação que você faz em termos de conteúdo e qualidade?
SL – Não posso falar sobre isso. Não posso falar sobre colegas. Não faz parte do meu estilo criticar colegas. Mas genericamente, em homenagem a sua vinda aqui, eu diria que a cobertura hoje é superior ao que era há vinte anos.
CP – Como você vê a crise no futebol europeu?
SL – Hoje as coisas transcorrem quase que normalmente. O grande problema na Europa é o excesso de poder dos clubes. Muito mais o poder dos clubes do que dos jogadores, esses não tem poder nenhum. Se você pensar de que forma os jogadores interferiram no andamento dos campeonatos nos últimos 20 anos, você vai ver nada. Agora, as federações sim. Mas hoje o poder é da liga de clubes. Na Itália, a liga de clubes é muito mais poderosa do que a FIG. Mas acho que não vai acontecer nada de extraordinário.
CP – Você acredita nas novas regras financeiras de padronização de gastos da UEFA, que tem planejamento pra começar a partir de 2013?
SL – Não. É lógico que isso é tudo ajambração, vão arrumar de uma forma ou de outra. Uma rodada do campeonato italiano que você interrompa, você perde 4 ou 5 bilhões de dólares. Dinheiro que os clubes movimentam, público, etc. A Juventus de Turim completou ontem (24/01) a 19ª partida em seu novo estádio com tutto esaurito. É a primeira vez em séculos na Europa que acontece isso. Uma equipe jogar com o estádio repleto. Não é um estádio grande, 40 mil lugares, mas você multiplica por 15 euros, dá uma bela de uma grana.
CP – Como você analisa a questão de segurança, violência nos estádios. Você consegue fazer algum paralelo com o que acontece no Brasil?
SL – Impossível fazer um paralelo e vou te explicar porque. Em primeiro lugar a violência lá é individual, não existe essa história da torcida uniformizada que decide brigar com outra torcida na estação do metrô. Lá ocorrem entrechoques individuais, mas as confusões são do idiota que tá com uma adaga na mão, um canivete e decide espetar o outro. Tanto que cada vez menos ocorre isso na Itália hoje.
Aqui é uma coisa de quadrilha. É combinada via internet, via orkut, via Facebook: ‘vamos matar os caras do São Paulo hoje em tal lugar, assim, assim’. É uma coisa de civilidade, não é uma coisa de raiva.
Além disso, lá você aquela coisa da identificação. Em qualquer lugar onde você vá, você tem a câmera. Aqui, de certa maneira também tem mas, não é assim. O cara lá que é flagrado e tenta entrar no jogo, ele não pode. Porque ele é identificado no acesso ao estádio e fica seis meses, oito meses, dois anos sem ver jogo. E aqui ninguém controla.
CP – Você tem alguma sugestão para que se resolva esse nosso problema?
SL – Há vinte anos que digo: identifiquem-se. É simples: carteirinha e fotografia. O cara chega no estádio e não pode entrar, é tão fácil. Isso funciona na Inglaterra desde os anos 80. O cara é obrigado a tirar um documento e não consegue entrar no estádio.
A segunda parte será publicada na quinta 02/02.

Parabéns Caio!! Ótima entrevista com uma pessoa espetacular!! No aguardo da parte 2